Olá;
Nesses últimos anos, os novos sacerdotes de Clio estão aos poucos desconstruindo um dos imaginários populares mais fortes existentes: O "grito" do Ipiranga que ao ser feito em 7 de setembro de 1822 tornou-se marco simbólico da indepêndencia do Brasil. A cena, retratada no famoso quadro feito pelo pintor Pedro Américo em 1888 (66 anos depois) tornou-se "real" por ser de tão forte simbolismo.
Em primeiro lugar que urrando gritos, o principe regente jamais proclamaria a independência nacional... Houve um conturbado contexto político interno e externo e complexas articulações, conduzidas por José Bonifácio, que levaram ao acontecimento, e o 7 de setembro é mais uma delas, pois foi nesse dia que D. Pedro recebeu notícias da situação no Rio de janeiro e sobre as Cortes de Lisboa acerca de seu retorno a Portugal. Em carta redigida por José Bonifácio e pela princesa D. Leopoldina eles carregam na dramaticidade:
“De Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores. Venha V.A. Real o quanto antes e decida-se; porque irresoluções e medidas de água morna, à vista desse inimigo que não nos poupa, para nada servem – e um momento perdido é uma desgraça”.
Com isso, José Bonifácio instigava o príncipe a se rebelar, combatendo as suas hesitações e desânimos. As reações de D. Pedro àquela carta, acreditamos estarem estampadas na tela de Pedro Américo, mas o que temos mais próximo do que realmente aconteceu as margens do rio Ipiranga foi o relato de um senhor que era padre, chamado Belchior Pinheiro de Oliveira. Em 1896 ele escreveu uma carta em que no seu interior ele relata como teria acontecido de fato o "7 de setembro"...
“O príncipe mandou-me ler alto as cartas trazidas por Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro. (...) D. Pedro, tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e, amarrotando-os, pisou-os e deixou-os na relva. Eu os apanhei e guardei. Depois, abotoando-se e compondo a fardeta – pois vinha de quebrar o corpo à margem do riacho do Ipiranga, agoniado por uma disenteria, com dores, que apanhara em Santos – virou-se para mim e disse:
_ E agora, padre Belchior?
E eu respondi prontamente:
_ Se V.A. não se faz rei do Brasil, será prisioneiro das Cortes e talvez deserdado por elas. Não há outro caminho, senão a independência e a separação.
D. Pedro caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim, Cordeiro, Bregaro, Carlota e outros, em direção aos nossos animais, que se achavam à beira da estrada. De repente estacou-se, já no meio da estrada, dizendo-me:
_ Padre Belchior, eles o querem, terão a sua conta. As Cortes me perseguem, chamam-me, com desprezo, de rapazinho e brasileiro. Pois verão agora o quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações: nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal!
(...) E arrancando do chapéu o laço azul e branco, decretado pelas Cortes, como símbolo na nação portuguesa, atirou-o ao chão, dizendo:
_ Laço fora, soldados! Viva a independência, a liberdade, a separação do Brasil.
(...) O príncipe desembainhou a espada, no que foi acompanhado pelos militares; os paisanos tiraram os chapéus. E D. Pedro disse:
_ Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil.
(...) Firmou-se nos arreios, esporeou sua bela besta baia e galopou, seguido de seu séquito, em direção a São Paulo, onde foi hospedado pelo brigadeiro Jordão, capitão Antônio da Silva Prado e outros, que fizeram milagres para contentar o príncipe.
Mal apeara da besta, D. Pedro ordenou ao seu ajudante de ordens que fosse às pressas ao ourives Lessa e mandasse fazer um dístico em ouro, com as palavras “Independência ou Morte”, para ser colocado no braço, por um laço de fita verde e amarela. E com ele apareceu no espetáculo, onde foi chamado o rei do Brasil, pelo meu querido amigo alferes Aquino e pelo padre Ildefonso (...)”
Bem, não foi uma coisa tão assim épica quanto achavamos que teria sido, mas de fato depois do 7 de setembro o Brasil jamais foi a mesma coisa de antes... Por isso virou História.
0 Comentários:
Postar um comentário