Ola;Nesses últimos dias dei uma breve relida em partes do pensamento de um dos maiores historiadores do século XX, Fernand Paul Braudel (1902-1985), cuja obra influencia até hoje a análise da história econômica, ou, do próprio capitalismo se quiserem. Braudel teve um percurso intelectual notável, destacando-se, entre outras atividades, o magistério no Collège de France e, no final da vida, a eleição para a Academia Francesa. Iniciou sua vida professoral na Argélia (1924-1932), então colônia francesa. Depois, retornaria a Paris, para, 3 anos mais tarde, lecionar na Universidade de São Paulo, na área de história moderna e contemporânea (1935-1937). Naquela época, a USP costumava convidar professores europeus para ministrar cursos. A “missão francesa”, por exemplo, compôs-se de pessoas que se tornariam, posteriormente, renomados acadêmicos como Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide.
No entanto, o conjunto de seu trabalho é que marcaria definitivamente as ciências sociais, lato sensu, ao buscar uma nova abordagem para o estudo da história econômica. Várias de suas obras foram publicadas em português, ainda que com um enorme atraso, como Gramática das civilizações, Reflexões sobre a história, Identidade da França: os homens e as coisas (póstumo), A dinâmica do capitalismo, Civilização material, economia e capitalismo.
Discípulo de Lucien Febvre (1878-1956), Braudel inovaria ao colocar de lado o estudo apenas dos grandes acontecimentos e personagens para debruçar-se sobre a análise do cotidiano, ao destacar a vida material e o conjunto das forças obscuras, como a demografia, a fome, a guerra, as doenças, a alimentação, o vestuário, as técnicas etc, que a influenciariam. Para ele, no estudo da nem sempre valorizada história econômica, deveriam participar elementos políticos, geográficos, psicológicos, literários, religiosos, lingüísticos etc.
Assim, Braudel trabalharia com três “tempos”: de longa duração, que expressava a relação do homem com seu meio; de média duração, em que analisava a história dos grupos humanos, das formas políticas e econômicas e a de curta duração, em que tomavam parte os eventos e as personagens históricas.
A partir disto, ele desenvolveria a genealogia do capitalismo, a partir de uma economia de mercado ainda incipiente, e dos seus grandes agentes, realçando suas características, uma das quais a de que capitalismo e Estado estariam sempre juntos, fosse como aliança ou exploração daquele sobre este. Desde as cidades-estados da península italiana, as elites do dinheiro são quem detinham o poder político.
Braudel cria nas virtudes do mercado, mas não a ponto de interpretá-lo como um deus ex machina, ou seja, um ajustador da oferta e da demanda, porquanto na vida real, poder-se-ia manipulá-lo com a atuação de monopólios ou cartéis.
Preocupar-se-ia também com o desenvolvimento econômico de outras regiões fora da Europa como China, Japão, Índia e Islã e as hipóteses por que estas não chegaram ao capitalismo no mesmo período que a Europa Ocidental, como a hostilidade governamental a formas superiores de trocas ou a satisfação tácita da sociedade com a circulação capilar dos mercados elementares.
Em contraposição à inviolabilidade da propriedade privada, admitida no Ocidente até pela Igreja Católica, nestas regiões, por via de regra, o Estado ou o governante era o proprietário das terras, cedidas em vida ao seu funcionário ou leal súdito, sem herdade em hipótese alguma. Destarte, não haveria então as condições sociais para o surgimento e o posterior êxito do capitalismo, que demanda certa fraqueza ou complacência do Estado.
De seus estudos, concerteza um dos conceitos mais importantes é o de economia-mundo, o qual significava um espaço geográfico, com um centro, que podia ser, de início, uma cidade-estado, como Amsterdã, no século XVII, e, atualmente, uma capital econômica, como Nova Iorque, nos EUA, e não Washington.
O núcleo sempre atrai a riqueza, o esplendor, as indústrias mais desenvolvidas e lucrativas e a agricultura mais desenvolvida. É o ponto de partida e de saída dos fluxos financeiros e materiais. Além dele, há as áreas intermediárias e periféricas.
Braudel apontaria 6 centros: Veneza, Antuérpia, Gênova, Amsterdã, Londres e Nova Iorque. Com a capital britânica, ocorreria uma virada da história econômica da Europa que foi a superação das antigas cidades-estados. Pela primeira vez, a economia européia rumaria a dominar a economia mundial, com o auxílio da assunção do desenvolvimento tecnológico da primeira Revolução Industrial.
Em suma, a economia-mundo seria a coexistência de inúmeras sociedades, mais ou menos avançadas, em que as zonas centrais dependeriam dos abastecimentos das periféricas, que necessitariam das demandas daquelas, que lhe ditariam o ritmo. Vide as relações de entre Portugal/Inglaterra e Portugal/Brasil em várias fases do nosso período colonial.
São teses polêmicas, mas o próprio Braudel afirmou que, em suas obras, ele abrira uma janela para a paisagem (econômica), que poderia não ser suficiente. Haveria sempre para os historiadores, como ele mesmo lembrava, uma América a percorrer e a revelar. Portanto, a visão neoliberal da economia política atual mostra-se insuficiente em uma visão de mundo braudeliana.
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